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A incorporação como um fenômeno cultural e não religioso.

  • Foto do escritor: Salamandra Mística
    Salamandra Mística
  • 14 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Aqui no Brasil, a incorporação é muito ligada a expressões religiosas como a Umbanda, Candomblé e Espiritismo. No entanto, você sabia que esse tipo de mediunidade é uma ferramenta que está à parte de uma religião? Tornando-se uma ferramenta mediúnica. Calma aí! Não to falando para ninguém sair incorporando espíritos em casa. Mas, nos últimos tempos, percebi que essas religiões viraram referências na incorporação (e com razão, é claro). No entanto, não são o única forma onde esse tipo de mediunidade se manifesta. 


Nesse post, vamos falar um pouco mais sobre a Incorporação como fenômeno social e mediúnico. Apresentar alguns usos históricos que vão além das religiões com inflência Afro ou Cristãs. Passaremos pela Ásia e por outras culturas. Então, vem comigo nessa leitura. 


O que é a incorporação?

Dentro da literatura e dos estudos nacionais, nós encontramos a incorporação como um tipo de mediunidade. Lá fora, ela muitas vezes é tratada como a palavra possession. Mas, diferente do português, essa palavra é usada para os dois eventos: algo agressivo, invasivo e não consentido. E para a incorporação, que é uma experiência totalmente consentida e que 


Portanto, se você for procurar materias internacionais, é comum encontrar termos como: Spirit possession, Possession trance e Trance mediumship. 


Mas, saindo dessa questão puramente técnica. Vamos entender qual é o conceito de incorporação?


Podemos definir, de forma singela, a incorporação como um estado alterado de consciência onde a identidade de uma pessoa é alterada por outra, interpretada culturalmente como um espírito, divindade ou alguma outra forma espiritual externa. 


Aqui, nesse texto, não falaremos sobre chakras e como ocorre, de fato, a incorporação. Se quiserem, coloquem nos comentários que eu trago um post sobre o tema. 


A antropóloga Erika Bourguignon é uma grande estudiosa não só da incorporação (lembrando que aqui esbarramos naquela questão técnica da palavra), mas dos estados alterados de consciência. E em seus estudos ela catalogou 488 sociedades ao longo do planeta e a incorporação apareceu nesses dados com ou sem religiões institucionalizadas. 


O que deixa claro que essa não é uma ferramenta exclusiva de uso religioso, mas de comunicação com a espiritualidade. A Antropologia estuda a incorporação como um fenômeno social, que está enraizado na identidade de uma civilização e que vai além de uma religião específica, mas de um povo.


Em quais outros lugares podemos encontrar a incorporação que não nas religiões populares no Brasil?


Aqui, é um campo muito interessante! Eu vou começar citando alguns exemplos mais conhecidos, inclusive no Brasil. E depois, vou finalizar o texto apresentando para vocês um tipo de incorporação que se popularizou no Tik Tok.


O primeiro destaque vai para os Xamãs Siberianos, como os do povo Evenki, que entram em contatos com os espíritos, animais ou ancestrais, e atuavam de forma diversa, ajudando nas mais variadas questões do seu povo. Aqui o que é mais interessante é que essa prática antecede a nossa noção de teologia estruturada. Existe uma visão de mundo (visão cosmológica), mas ela não é estruturada como temos atualmente nas religiões. 


Vamos ir para um passado um pouco mais próximo, a Europa do século XIX e XX, que florescia uma paixão pelo oculto. Nessa época, tivemos o surgimento e fortalecimento de uma visão espiritualista, onde muitos médiuns da época se diziam estudiosos. E, inclusive, rejeitavam visões religiosas, observando o mundo espiritual e o fenômeno da incorporação de uma forma quase estudiosa. (Sim, exatamente como Allan Kardec).De modo geral, nós temos a incorporação com o objetivo artístico e não, necessariamente, religioso. Culturas africanas e asiáticas têm esse tipo de evento. Onde certos tipos de dança e práticas levam a esse estado que pode ser catalogado (ou interpretado, talvez) como a incorporação, pois levam a estados alterados de consciência que geram perda de identidade, manifestações físicas arquetípicas. 


E por fim, nos últimos tempos o Tik Tok foi bombardeado com vídeos de incorporações asiáticas, que levaram a muitas comparações com entidades brasileiras. Principalmente, a do Príncipe Nezha que é comparado aos Erês pelos seus trejeitos infantis.


No entanto, eu, particularmente, sou contra esse tipo de comparação. Tendo em vista que trejeitos arquetípicos não são, necessariamente, as mesmas coisas, pois derivam de sociedades diferentes. Quando olhamos para Nezha, vemos um arquétipo que além de criança, é do guerreiro, do embate. Dentro da cultura em que ele está inserido, seus mitos contam com ele derrotando dragões, demônios e o próprio Rei Macaco, que posteriormente vira seu amigo. Mas, afinal, o que é essa manifestação asiática? Ela é derivada de uma religião? 


Esse tipo de incorporação, em meus estudos, está associado um culto muito mais popular do que institucionalizado. Os médiuns são chamados de tangki, em Singapura. De tongji, na China. E masong, na Tailândia.Nela, os médiuns incorporam divindades e quando estão incorporados, são tratados realmente como divindades. O mais interessante? É a visão de médiuns. Diferente no que temos no ocidente, principalmente no Brasil, a mediunidade não é algo aprendido, mas uma característica que recebemos ao nascer. 


Eles acreditam que todos os humanos são recipientes. Adultos, são recipientes cheios. Crianças, recipientes pela metade que se tornam cheios na vida adulta. No entanto, os médiuns são recipientes que mesmo na maturidade, permanecem pela metade. Então, uma forma de prolongar a vida é servindo às divindades. Interessante essa visão, não é? 


Pois bem, caso você sinta interesse em saber mais, eu indico esse post aqui


Então, pode sair incorporando qualquer coisa em casa?

Vamos com calma meus amores! A incorporação ainda é um fenômeno espiritual que precisa, para ser seguro para o médium e quem recebe o atendimento, de um preparo do ambiente, de toda uma estrutura que facilite a entrada nesse estado e a firmeza de quem é ponte entre o mundo material e imaterial. 


E é nesse aspecto que se populariza as religiões, já que elas criar uma sistematização desse tipo de fenômeno mediúnico. 


Existe, sim, incorporações em residências aqui no Brasil - e inclusive, na Ásia, essas incorporações acontecem em áreas residenciais. Mas, tudo acontece com preparo, cuidado e fundamento espiritual. 


Incorporação não é sinônimo de falta de responsabilidade. Assim como qualquer manifestação mediúnica requer estudo e treinamento adequado. 


Mas, agora, me conta: o que vocês acham desses outros tipos de incorporação?


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